Como funciona a democracia brasileira?


A democracia brasileira, já jovem em termos de lei, se emancipou de fato com a eleição do primeiro presidente declaradamente liberal-conservador, alinhado com a preferência majoritária da população, que nunca havia sido verdadeiramente representada nas esferas mais relevantes do poder. O caminho que possibilitou tal fenômeno foi constituído fundamentalmente pela ruptura da hegemonia intelectual do espectro de esquerda no país, pelo desenvolvimento e popularização das ferramentas virtuais de comunicação e, nos últimos estágios, pelas manifestações espontâneas de grupos descentralizados em prol de bandeiras contrastantes ao establishment.

Apesar de tão notório divisor de águas, a conjuntura nacional ainda se encontra eivada de bolhas dissonantes da essência cultural do país, sustentadas por minorias organizadas e portadoras de anseios obscuros. A própria maneira pela qual se deu a ascensão da corrente liberal-conservadora no Brasil foi prematura e sem profundidade institucional, tendo em vista que os princípios que a guiaram foram ausentes de grau razoável de uniformidade, devido à escassez de, previamente, debates teóricos consistentes e ocupação das esferas de poder além da política, o que fez com que a organização das bases aliadas ficasse comprometida e errática.

Enquanto o movimento popular em favor da derrocada do sistema corrompido que rege os poderes da República entrava em ebulição, com grande volume de manifestantes, uma minoria organizada denominada Movimento Brasil Livre (MBL) nasceu e passou a capitanear a organização das manifestações, divulgando maciçamente suas pautas e datas. As perspectivas promissoras do referido grupo no cenário nacional se viram desenganadas com uma atitude que colidiu brutalmente com os claros anseios populares: a aliança com os partidos políticos que se autointitulavam de oposição especificamente ao governo Dilma, mas faziam parte daquilo contra o qual o povo protestava. Esta atitude possibilitou que o sistema se reinventasse, sacrificando a reputação e o mandato de uma única pessoa e de um único partido, livrando todo o establishment da punição de seus crimes e protegendo da exposição de seus ideais doentios os partidos com a mesma ideologia daquele que esteve no epicentro da crise.

Grande parte das mazelas do Brasil está enraizada em dois elementos: o marxismo cultural, há décadas em vigência no país e subdividido na vertente gramsciana, que propõe ocupação de espaços por agentes revolucionários para que a mentalidade da população se molde, inconscientemente, de acordo com os termos e princípios revolucionários até que todos se tornem socialistas sem se dar conta, e na vertente da Escola de Frankfurt, que propõe a destruição dos pilares culturais do Ocidente (propriedade privada, noção filosófica de verdade absoluta e paradigma judaico-cristão) por meio, principalmente, do afloramento de práticas e percepções marginalizadas e criminosas na sociedade; e o estamento burocrático (establishment), composto por oligarquias patrimonialistas e corruptas que se posicionam de acordo com as vantagens que lhes são oferecidas em forma de propinas, privilégios e influência nas estruturas de poder. Enquanto o primeiro age nas instituições nevrálgicas da sociedade, como escolas, universidades, igrejas, grande mídia e afins, o segundo está mais presente em setores de mercado cartelizados, sindicatos, tribunais e também nos cargos políticos, fazendo acordos espúrios em detrimento da sociedade.

O fato de o mecanismo de eleição dos parlamentares (com exceção dos senadores) ser por voto proporcional (ou seja, os candidatos são eleitos de acordo com a quantidade de vagas à qual cada coligação tem direito, que é concedido com base no volume de votos desta) faz com que muitos dos eleitos não tenham real representatividade popular, tendo em vista que a grande parte do eleitorado vota com base na imagem individual do candidato e não na de sua legenda. Isso, somado ao coronelismo de caciques políticos e seus grupos, principalmente no nordeste, gera uma grande quantidade de parlamentares cuja eventual falta de lisura e atuação antirrepublicana não influem em sua base eleitoral, já que esta é condicionada a benesses ou compra de voto, o que faz com que os primeiros tenham ainda mais liberdade para agir de modo socialmente danoso. 

O cenário brasileiro se constitui em meio a fortes grupos de interesse que agem contra os mecanismos de justiça e o bem comum. É com tais poderes que os governantes têm a incumbência de negociar e articular a fim de tornar viável a sua administração: alguns podem optar por barganhar mediante a delegação de cargos em empresas estatais, autarquias e ministérios; e outros podem distribuir propina com dinheiro público. Enquanto os pretensos movimentos sociais não fizerem uso de sua influência e aparato em favor das pressões populares legítimas e espontâneas, que, desprovidas do viés anti-republicano das oligarquias e utopias, visam ao bem comum, haverá convulsões políticas e culturais de impacto brutal, com consequências sofríveis.


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