Reflexões sobre a morte (parte 3)

Praia do Bessa - Turismo João PessoaTurismo João Pessoa

1.3. Promessas de luz e redenção na obra de Waldo Lima do Valle. 

1.3.1. Informações iniciais sobre o poeta e prosador. 

Waldo Lima do Valle nasceu, em 1935, na cidade de João Pessoa/PB, onde passou a maior parte de sua vida terrena. Por muitos anos, residiu, com seus familiares, na encantadora Praia do Bessa. Formado em filosofia, foi professor da Universidade Federal da Paraíba. 

Homem estudioso, culto, sensível, dotado de capacidade de reflexão, respeitado por seus discípulos, tornou-se um poeta e prosador. Retratou com estilo os encantos do mundo. Difundiu seus conhecimentos. Compartilhou suas dúvidas. Entre seus escritos, destaco os livros O SONHO DA ASA SOLTA (1975), VOZES DO SILÊNCIO (1984), MORRER E DEPOIS (1997), O SERMÃO DA MONTANHA (2000) e DIÁRIO DE UM ANJO (2005). 

Quem examina o seu primeiro livro descobre que Waldo foi um escritor encantado com as belezas do ambiente onde viveu. Do terraço de sua vivenda, situada em frente ao mar, ele contemplou muitas vezes as velas de jangadas e pranchas, que nos dias de verão, iluminadas pela claridade intensa do sol, deslizam na superfície das águas. Descreveu a bela cena e a sensação experimentada por quem veleja:

“O SONHO DA ASA SOLTA:

O sonho da asa solta...

Anseio louco, infinito,

Liberdade, num só grito,

Mar que explode, onda revolta!

Que vontade de pairar

Aqui, ali, mais além,

Ter poder que o mundo tem

De sem ter asas, voar!

Ser aéreo, etéreo... e nobre.

Ser bem rico, sendo pobre,

Na amplitude da visão...

Ser surdo a sucessos parcos;

E em velas soltas de barcos,

Ver asas na imensidão!” [1]


O escritor fez amigos. Esmerou-se em preservá-los. Sentia que a camaradagem se estabelece entre pessoas honestas, virtuosas, sintonizadas por interesses comuns. Por isso, enalteceu o companheirismo, entoando o

“SONETO DA AMIZADE:

Amigos conhecemos às centenas.

Em cada canto surge uma amizade;

Difícil é descobrir afinidade,

Sintonizar os dois num só apenas.

Um barco está perdido em noite mansa;

Não brilha em mais ninguém a luz da crença;

De súbito, a luz de uma presença:

Um outro barco surge, é esperança!

Destino gravitando outro destino;

Amigo, prêmio nobre tão divino,

É sorte grande para os corações!

Feliz tê-los um dia em meu caminho;

Meu barco não ficou no mar sozinho...

Afinidade, luz, cintilações!...” [2]


Compreendia o poeta que a ventura habita no coração de quem ama, não dependendo da condição econômica da pessoa. Compôs, então, outro soneto falando da

“FELICIDADE:

Havia uma casa acesa,

Emoldurada de flores;

Recanto ideal de amores;

Lá dentro nua pobreza.

Lamentando as suas dores;

Do sustento, a incerteza,

Descobriram uma riqueza.

Numa paz de sonhadores...

A jangada foi ao mar,

A sardinha está na brasa.

Lá fora um meigo luar,

Em silêncio, segredava:

Quem vive a sonhar,

Tem amor dentro de casa.” [3]


Para Waldo, o amor se anula se não chega ao coração de quem se relaciona com outra pessoa. Com base nessa experiência, compadeceu-se de uma mulher que se entregara à libertinagem, pois a considerou uma

“AVE PERDIDA.

Pobre mulher, perdida na procura;

Estranho que teus olhos tenham brilho!

Caminhas qual vagão colado ao trilho,

O trilho, sem destino, da amargura.

Mulher sem véus, és como ave perdida

Num turbilhão de sonhos já desfeitos;

Pousaste em tantos ninhos, ninhos-leitos,

E amargas sempre a dor da despedida.

O brilho dos teus olhos me ofusca,

Que sinto algo divino em tua busca,

E vejo, a cada passo, a frustração...

Mulher, nada conheces do amor,

Não desferiste o vôo interior,

Não descobriste, ainda, o coração!” [4]


Transcrevi quatro sonetos do livro O SONHO DA ASA SOLTA, para demonstrar que o escritor dominava a arte poética, expressando-se com elegância estética. 

Waldo não foi apenas um romântico contador de experiências reais ou imaginárias. Pelo contrário, foi um artista da palavra, culto, dotado de aguçada capacidade de reflexão sobre os eventos do ambiente onde se movimentou. 

A sensibilidade poética o estimulava a ouvir os marulhos do oceano, o gorjeio dos pássaros, as melodias das músicas, os ruídos da natureza, as falas das pessoas. No entanto, essa sensibilidade convivia harmoniosamente com as cismas do filósofo, que contemplava o cosmos, escutava as VOZES DO SILÊNCIO e organizava os próprios pensamentos a respeito das alegrias, das dores e dos mistérios do existir. 

O filósofo fitava embevecido o céu pontilhado de incontáveis luzeiros, recomendando a seus leitores que contemplassem a abóbada celeste, para penetrar, “com a visão do espírito, nos arcanos do Cosmos.” Sugeria, ainda, que, depois que sentissem o “pulsar de vida na Criação Infinita”, refletissem a respeito da insignificância dos sucessos terrenos e das verdades seguintes:

“- Ante a beleza do Infinito e em louvor ao Seu Criador, DEUS seria a primeira palavra a ser formada pelo alfabeto dos astros.

- Os seres humanos, de olhos chumbados no solo da Terra, não aprenderam ainda nem o A, B, C da cartilha das estrelas!

- No bojo da noite, o cintilar dos astros é qual aceno de luz das moradas longínquas do Universo sem fim.

- A noite estrelejada lampeja esperanças em meio à escuridão.” [5]

Assim era Waldo Lima do Valle. Entre os labores do magistério, as leituras de livros, a contemplação do mundo, a convivência com a esposa, os filhos, os netos e os amigos, encontrava tempo para escrever versos e meditar sobre os eventos do universo. 

As obras já mencionadas, além de atestar as virtudes estéticas do artista da palavra, transmitem a essência de seus pensamentos cheios de amor, esperança e fé, diante dos enigmas do cosmos. 

Num de seus livros, MORRER E DEPOIS, Waldo admite seu ecumenismo. A sua fé se fundava na crença espírita, que tem como dogma o amor revelado na doutrinação de Jesus. A religião dele, portanto, resumia-se “em quatro afirmações do filósofo francês Léon Denis: Por templo, o Universo. Por altar, a Consciência. Por imagem, Deus. Por lei, o Amor.” [6] 

Na percepção de Waldo Lima do Valle, o espiritismo sintetiza a “sabedoria dos séculos e dos milênios”, sendo, simultaneamente, “ciência, filosofia e religião.” Desse modo, no aspecto religioso, a doutrina espírita ampara-se na mensagem de Jesus, sumariada “numa máxima ética de validade universal: ‘Tudo quanto, pois, que quereis que os homens vos façam, assim faça-o vós também a eles porque esta é a Lei dos Profetas.’ (MT: 7:12).” [7] 

Waldo aproximou o espiritismo da filosofia de Immanuel Kant, que não dissentia da lição revelada por Jesus através do Evangelho de Mateus (7:12). Com efeito, o sábio de Könisberg [8] recomendava que as pessoas obedecessem ao imperativo categórico, o qual pode ser sintetizado na seguinte regra: “Age apenas segundo a máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal.” [9]. 

Waldo Lima do Valle seguia a religião espírita, tentando conciliá-la com a doutrina cristã e a filosofia kantiana.


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[1] VALLE, Waldo Lima do. O SONHO DA ASA SOLTA. João Pessoa/PB: Imprensa Universitária. 1975. P. 25. 

[2] VALLE, Waldo Lima do. Obra citada no item1. P. 105. 

[3] VALLE, Waldo Lima do. Obra citada no item1. P. 49. 

[4] VALLE, Waldo Lima do. Obra citada no item1. P. 161. 

[5] VALLE, Waldo Lima do. VOZES DO SILÊNCIO. João Pessoa/PB: GGS – Grande Gráfica e Serviços Ltda. 1984. Págs. 57 e 58. 

[6] VALLE, Waldo Lima do. MORRER. E DEPOIS? (Como vivem os que morrem). João Pessoa/PB: A União Editora. 2ª edição. 1997. P. 24. 

[7] VALLE. Waldo Lima do. Obra citada no item 6. P. 24. 

[8] KÖNIGSBERG fica no território da antiga Prússia. Atualmente, chama-se Kaliningrado e pertence ao território da Rússia. [9] KANT, Immanuel. FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES. Tradução com introdução e notas por Guido Antonio de Almeida. São Paulo/SP: Discurso Editorial. Editora Barcarolla Ltda. 2009 (Coleção philosophia). P. 215.

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